6.9 Orientação para o engajamento de atletas com experiência vivida de abuso
A orientação a seguir foi elaborada para a UK Child Protection in Sport Unit (CPSU, Unidade de Proteção à Criança no Esporte do Reino Unido) [Dica: Mantenha a tecla Ctrl pressionada e clique em um link para abri-lo em uma nova guia (Ocultar dica)] e foi elaborada com a ajuda de Karen Leach, ex-nadadora com experiência vivida de abuso na infância.
"Eu falo da minha experiência porque acredito que tenho percepções que são valiosas para todos os envolvidos no esporte e para ajudar a evitar que o que aconteceu comigo aconteça novamente. Pode ser muito difícil revisitar essas experiências, mas quando o trabalho é bem planejado e pensado pela organização, ele pode resultar em medidas muito importantes e significativas a serem tomadas. No entanto, é importante entender que, sem o apoio robusto da organização, a pessoa com experiência vivida pode se sentir abusada novamente."
Talvez você consiga identificar outras organizações, como a CPSU, que oferecem orientação semelhante na sua região.
Examinando os cinco temas de orientação da CPSU
Percepção
Cada pessoa tem experiências diferentes, portanto, você deve entender isso antes de começar o seu trabalho:
- Demonstre gentileza, compreensão e empatia.
- Reconheça que cada pessoa é um indivíduo e, portanto, terá necessidades diferentes.
- Ouça para entender o que está sendo comunicado, em vez de para responder.
- Entenda que as pessoas estarão em estágios diferentes na sua experiência e recuperação - coisas como aconselhamento, e se a pessoa já ter falado da experiência antes, podem influenciar o impacto nela.
- Mantenha a comunicação aberta e oportuna.
- Entenda que o reconhecimento e pedido de desculpas por parte da liderança da organização esportiva, frequentemente, é extremamente importante para pessoas com experiência vivida.
- Reconheça que seja necessária uma ação proativa contínua para criar e manter organizações responsáveis por reduzir o risco de abuso.
Respeito
Falar pode ser muito difícil, e os desejos e limites da pessoa devem ser respeitados:
- Considere a possibilidade de pagar pela expertise da pessoa, pergunte a ela qual seria o seu honorário e avalie se ela terá ou não despesas.
- Crie um contrato para definir como o trabalho será realizado e como será usado no futuro.
- Considere oferecer a opção de aprovar citações e remover conteúdo no futuro, especialmente, se for provável que a pessoa fale de elementos da sua experiência vivida de abuso sexual.
- Estabeleça um acordo para definir como as citações serão usadas e onde o conteúdo será exibido, por exemplo, em mídias sociais, comunicados à imprensa, site, newsletters, pôsteres etc.
Planejamento
Antes de falar com uma pessoa com experiência vivida, considere o que você deseja realizar, e tente definir um objetivo mensurável:
- Pense no que o trabalho poderia realmente envolver, por exemplo, comentar sobre uma política, participar de uma conferência, falar de uma experiência para fins educacionais ou de capacitação.
- Envolva a pessoa com experiência vivida de abuso para que ela decida como quer ser incluída e para que direcione o seu engajamento.
- Forneça à pessoa com experiência vivida de abuso cuidados e apoio sensíveis ao trauma.
- Garanta tempo suficiente para cada etapa do trabalho e ofereça pausas frequentes, especialmente se o trabalho envolver a pessoa falar de suas experiências.
- Reconheça que falar de suas experiências pode causar impacto considerável em uma pessoa. Os organizadores devem cuidar de todos os aspectos práticos, como hotéis, táxis e refeições, para que a pessoa possa se concentrar no que precisa fazer.
- Tente definir as principais informações práticas, como pagamento, despesas, termos, datas e possíveis cronogramas, no primeiro contato.
- A pessoa com experiência vivida deve estar de acordo com o local de trabalho ou de reuniões, que deve ser um local ou um lugar no qual possa ser criado um ambiente seguro.
- Discuta se a proposta atende aos objetivos da pessoa com experiência vivida.
Linguagem
Pessoas usam termos diferentes para descrever o abuso sexual na infância, e você deve reconhecer que os termos são uma escolha pessoal e podem evocar sentimentos fortes.
- Tente usar o termo preferido da pessoa em informações impressas, como em biografias, programações, legendas, entre outros, e quando falar com ela também.
- Para descrever um abuso que ocorreu há algum tempo, tente fornecer o contexto ou use “abuso sexual na infância”. Às vezes, pode ser necessário dizer “abuso não recente”, mas o termo “abuso histórico” deve ser evitado, pois implica erroneamente que o impacto já terminou para a pessoa.
- Quando descrever a experiência de uma pessoa, considere como os significados de algumas palavras que você usa podem gerar associações para ela. Para a mídia, por exemplo, “história” é outra palavra para “artigo”, mas a palavra “história” também está associada à narrativa fictícia e ao entretenimento, o que pode ofender a pessoa que fala da sua experiência na vida real.
Cuidados contínuos
O diálogo deve continuar após um trabalho. Planeje continuar a conversa - lembre-se de que falar de experiências pode causar grande impacto em uma pessoa e que ela pode precisar de apoio depois:
- Discuta como esboços, resultados ou devolutivas do trabalho serão compartilhados e usados.
- Discuta possíveis oportunidades de colaboração no futuro e dê seguimento a essas ideias.
- Reconheça e valorize quem fala das suas experiências. Com a permissão da pessoa, coloque o nome dela no trabalho que ela fez com você.
- Forneça apoio aos funcionários que trabalham com pessoas com experiência vivida e que podem considerar angustiante ouvir algumas das informações.
- Adote um plano para que eles falem com alguém que possa apoiá-los durante e após o trabalho.
- Reconheça a contribuição que pessoas com experiência vivida deram durante o tempo em que participaram do esporte ou clube e garanta que elas sejam reconhecidas da mesma forma que os seus colegas.
Na seção final, você analisará como todos no esporte devem desempenhar um papel no reconhecimento e na redução do trauma.
6.8 Como você pode se engajar efetivamente com pessoas com experiência vivida de abuso?




