Viés de informação

Participantes classificados de forma errada

Erro de classificação

Toda informação obtida sobre um participante de um estudo está sujeita a algum erro:

  • O participante não se lembra perfeitamente do seu histórico de saúde.
  • O participante pode evitar responder que tem certos hábitos de saúde por causa do estigma associado a eles.
  • Mesmo medidas objetivas como pressão sanguínea variam de dia para dia.

Por isso, quando os participantes são divididos em grupos segundo estas informações, alguns participantes serão classificados no grupo errado, por exemplo

  • quem teve cancer na família vs. não teve
  • quem bebe regularmente vs. bebe ocasionalmente
  • quem é hipertenso vs. normotenso

Não-diferencial

Quando os participantes que sofrem o evento estudado (por exemplo que adoecem de um câncer) são misclassificados da mesma forma que os controles, o efeito desta misclassificação não-diferencial é simplesmente o de reduzir os efeitos observados - o sinal verdadeiro é diluído no ruído das informações erradas. Isso significa que o efeito real seria pelo menos tão grande quanto o efeito estimado e publicado.

Diferencial

Um problema mais sério ocorre quando os erros de classificação são diferentes para casos e controles. Isso acontece muito facilmente quando um questionário é aplicado depois que o participante soube do seu diagnóstico. Ele fará um esforço procurando causas para a doença e, portanto, lembrará de possíveis causas com mais facilidade do que faria um participante não diagnosticado: histórico familiar, comportamentos etc. Mesmo medidas objetivas podem ser afetadas si o profissional que toma a medida conhece o diagnóstico do paciente. 

Nestes casos de misclassificação diferencial, o efeito aparente pode ser ou menor ou maior do que o efeito real. Um efeito publicado ser devido mais à memória seletiva dos participantes do que a uma verdadeira relação de causa e efeito pode se tornar um grande problema. Blair e cols. publicaram o seguinte artigo, cujos dados podem estar sofrendo de misclassificação diferencial: "Non-Hodgkins's lymphoma and agricultural use of the insecticide Lindane", Am J Ind Med 1998, 33:82-87.

Para encontrar um número suficiente de agricultores que morreram de linfoma não-Hodgkin's, os autores incluíram também pessoas que morreram deste linfoma antes de poderem ser entrevistados. Entrevistaram então familiares dos falecidos (aqui chamados de proxies). 

Quando a análise era restrita só a aos participantes entrevistados vivos (mas que foram incluídos no estudo quando morreram), a associação de lindano com o linfoma tinha um odds ratio de somente 1.3. Quando a análise era restrita aos familiares de pessoas já mortas antes de serem entrevistadas, o odds ratio era mais alto: 2.1.

Obviamente, a exatidão das informações é menos boa quando são de segunda mão. Isso se confirma, por exemplo, ao constatar que a porcentagem dos familiares que não conseguiam se lembrar se lindano tinha sido usado era mais alta do que entre os próprios agricultores ainda vivos.

Se fosse misclassificação não-diferencial, o efeito deveria ser mais baixo entre os entrevistados por proxy. O fato do efeito ser bem mais alto aqui do que entre os entrevistados pessoalmente sugere fortemente que houve misclassificação não-diferencial: os familiares só se lembravam do uso de lindano quando seu parente agricultor tinha morrido de linfoma.

Última atualização: quarta-feira, 8 jul. 2026, 15:39